Muitos de nós, talvez, estamos tão cheios de
nossas preocupações ou distrações que não nos apercebemos ao meio de nossa convivência
humana.
Uma das circunstâncias que chama a nossa
atenção está ligada diretamente à noção de segurança que temos em nosso país de
um modo geral. Mas não faço aqui uma alusão tão somente aos níveis de
criminalidade, postos inclusive entre os maiores do mundo em questão de
homicídios, dos quais três das nossas cidades figuram no ranque, nada privilegiado,
das dez mais do mundo, segundo recente pesquisa da ONU.
A violência contra a vida está marcante em
nosso país. Conforme a definição de homicídio, encontrada em dicionários
linguísticos de nossa pátria, podemos até imaginar como esta questão vem sendo
tratada; porém, não por sua definição em si, ou seja, a morte de uma pessoa
praticada por outrem, mas no modo como a tratamos no decorrer dos anos.
A violência contra a vida humana tanto se nos
apresenta ao ponto de parecer que nós nos acostumamos com ela – num certo
sentido. Passamos do medo da barbárie ao silêncio do nosso egoísmo. Só
percebemos que este exercício da brutalidade está bem perto de nós quando vemos
cair aos nossos pés um ente querido, um irmão. Fora isso não se dá importância
a tantos outros que caem todos os dias nas ruas de nossas cidades. Pais e mães,
tios, irmãos sofrem a cada dia com a perda de um dos seus para a criminalidade.
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| O fratricídio cometido por Caim |
Muitos há quem se pergunte: “Mas esse
problema é meu?” Depende do ponto de vista que você tem da vida e dos outros...
João Bosco, músico popular brasileiro, num
excerto de sua obra diz como tantos de nós vemos o nosso semelhante, vide: Tá lá o corpo/ estendido no chão / em vez de
rosto uma foto / de um gol/ em vez de reza / uma praga de alguém / e um
silêncio / servindo de amém.
Então, o que nos torna tão egoístas ao ponto
de silenciarmos frente à dor de outrem? Quem sabe se não podemos tratar o
sofrimento daquele como alguém mais próximo de nós, ou seja, tratá-los como
irmão – frater, em latim. E é aqui
que queremos indicar como as nossas relações de alteridade poderiam ser
estabelecidas. Ao invés de tratar o abatido como mais um homicídio na conta do
governo, e até praguejar sobre seu corpo ferido, o tratássemos como a um irmão.
Não obstante, o fato de o termo ser comumente
usual entre os cristãos, este evoca a posição exigente de atenção para com o
outro, o tornando mais próximo. Talvez soe mais urgente se tomarmos aquele
substantivo referido ao crime contra a vida, por fratricídio do contíguo.
Não queremos, pois, pregar uma doutrina
religiosa, mas tão só um modo de ver o outro na possibilidade de causar em nós
um insight de que eles, os abatidos
pela violência, são desse modo, nosso próximo, nosso irmão.
Não fechemos nossa janela de frente pro crime!
Tá lá o corpo estendido no chão... O que
fazer agora com o nosso irmão? Sermos indiferentes? Não diga amém com seu
silêncio.


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