sábado, 7 de junho de 2014

Tá lá o corpo estendido no chão


Muitos de nós, talvez, estamos tão cheios de nossas preocupações ou distrações que não nos apercebemos ao meio de nossa convivência humana.
Uma das circunstâncias que chama a nossa atenção está ligada diretamente à noção de segurança que temos em nosso país de um modo geral. Mas não faço aqui uma alusão tão somente aos níveis de criminalidade, postos inclusive entre os maiores do mundo em questão de homicídios, dos quais três das nossas cidades figuram no ranque, nada privilegiado, das dez mais do mundo, segundo recente pesquisa da ONU.
A violência contra a vida está marcante em nosso país. Conforme a definição de homicídio, encontrada em dicionários linguísticos de nossa pátria, podemos até imaginar como esta questão vem sendo tratada; porém, não por sua definição em si, ou seja, a morte de uma pessoa praticada por outrem, mas no modo como a tratamos no decorrer dos anos.
A violência contra a vida humana tanto se nos apresenta ao ponto de parecer que nós nos acostumamos com ela – num certo sentido. Passamos do medo da barbárie ao silêncio do nosso egoísmo. Só percebemos que este exercício da brutalidade está bem perto de nós quando vemos cair aos nossos pés um ente querido, um irmão. Fora isso não se dá importância a tantos outros que caem todos os dias nas ruas de nossas cidades. Pais e mães, tios, irmãos sofrem a cada dia com a perda de um dos seus para a criminalidade.
O fratricídio cometido por Caim
Muitos há quem se pergunte: “Mas esse problema é meu?” Depende do ponto de vista que você tem da vida e dos outros...
João Bosco, músico popular brasileiro, num excerto de sua obra diz como tantos de nós vemos o nosso semelhante, vide: Tá lá o corpo/ estendido no chão / em vez de rosto uma foto / de um gol/ em vez de reza / uma praga de alguém / e um silêncio / servindo de amém.
Então, o que nos torna tão egoístas ao ponto de silenciarmos frente à dor de outrem? Quem sabe se não podemos tratar o sofrimento daquele como alguém mais próximo de nós, ou seja, tratá-los como irmão – frater, em latim. E é aqui que queremos indicar como as nossas relações de alteridade poderiam ser estabelecidas. Ao invés de tratar o abatido como mais um homicídio na conta do governo, e até praguejar sobre seu corpo ferido, o tratássemos como a um irmão.
Não obstante, o fato de o termo ser comumente usual entre os cristãos, este evoca a posição exigente de atenção para com o outro, o tornando mais próximo. Talvez soe mais urgente se tomarmos aquele substantivo referido ao crime contra a vida, por fratricídio do contíguo.
Não queremos, pois, pregar uma doutrina religiosa, mas tão só um modo de ver o outro na possibilidade de causar em nós um insight de que eles, os abatidos pela violência, são desse modo, nosso próximo, nosso irmão.
Não fechemos nossa janela de frente pro crime!

Tá lá o corpo estendido no chão... O que fazer agora com o nosso irmão? Sermos indiferentes? Não diga amém com seu silêncio.

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