Certamente
é por isso que o louco é mal compreendido, mesmo por aqueles que não creem em
Deus; e de forma alguma tiram disto as conseqüências que o ateísmo traz e,
preferem assim, continuar a viver como se a notícia da “morte de Deus” não se
lhes tivessem chegado aos ouvidos, a nós.
“Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento
enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens”
(NIETZSCHE). A esta sentença devastadora, o mundo supra-sensível
fica sem força de atuação. Se “Deus está morto”, então não resta mais nada em que
o homem possa se apoiar e a que ele possa se direcionar. Com a consciência de
que Deus está morto o niilista inicia seu ponto basilar para uma transvaloração
radical dos valores supremos que se vivenciou até aqui.
Se Deus está morto enquanto o fundamento
supra-sensível e enquanto a meta de
todo real, se o mundo supra-sensível das ideias perdeu sua força imperativa e antes de tudo sua força evocadora e
construtora, então não resta mais nada, junto a quem o homem possa se manter e em direção a que ele possa se
direcionar (HEIDEGGER).
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| Martin Heidegger, filósofo alemão |
Portanto, com essa leitura de Heidegger, vemos que o
“Deus está morto” de Nietzsche é intrínseco ao modo de compreensão do niilismo
dada pelo próprio filósofo. À busca infrutífera daquele que gritava: “Procuro Deus! Procuro Deus!”, seguida da
incompreensão dos homens, oferecem-nos a interpretação na qual o acontecimento histórico em que a
derrocada de Deus e o aparecimento do
niilismo é um fato que se chagara prematuramente. Conseqüentemente, a morte de
Deus é um fato que ainda está acontecendo a nós.
Há, contudo, duas maneiras de ateísmo – provavelmente
encontradas pelo louco do aforismo 125: uma delas é o não crer em Deus, a
outra, crer que ele não existe. Essas duas maneiras de ateísmo podem ser confirmadas
no pensamento de André Comte-Sponville (1952) em seu Dicionário Filosófico.
Segundo este, no primeiro caso, temos uma ausência de crença (ausência de Deus)
que ele define como “ateísmo negativo”; já no segundo caso, temos uma crença
numa ausência (negação de Deus), posição que o filósofo classifica de “ateísmo
positivo”, ou mesmo “militante”. Nietzsche, porém, proclama que ele morreu: nós o matamos – vocês e eu. A “morte de
Deus” é expressão máxima do ateísmo niilista por Nietzsche, visto que sem o
qual, não poderá haver “a transmutação de todos os valores” – um niilismo.
Nietzsche previu grandes marasmos em seu século e até hoje, um grande
declínio, após o desatar a terra de seu
sol metafísico, até então considerado o pólo a ser atingido; como também a
derrocada dos valores platônicos e cristãos no apagar o horizonte. Com isso, coloca-se o homem perto do nada,
vitimado pelo niilismo. Os valores ora cultuados durante séculos desabaram,
haja vista a notícia da morte de Deus. O mundo soava oco e a absurdo. Assim,
Nietzsche antevê a terríveis conseqüências, os grandes cataclismos e
desabamentos, que se seguiram à “morte de Deus”:
O maior acontecimento recente – o
fato de que “Deus está morto”, de que
a crença no Deus cristão perdeu o crédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. [...] Essa
longa e abundante
seqüência de ruptura, declínio, destruição, cataclismo, que agora é iminente: quem poderia hoje adivinhar o bastante acerca dela para ter de servir de professor e
prenunciador de uma tremenda
lógica de horrores, de profeta de um eclipse e ensombrecimento
solar, tal como provavelmente jamais houve na Terra?...
(NIETZSCHE).
É, pois, este, o ponto culminante
no processo de dessacralização dos ideais ascéticos, da descritianização do
ocidente, isto é, o maior
acontecimento recente – o fato de que
“Deus está morto”. Portanto, ao pregar este necessário assassinato, a saber, “a
morte de Deus” Nietzsche defende que, só a partir disto, é que os homens se libertarão
dos ideais quiméricos. É, portanto, esse acontecimento que vem trazer para nós,
a maturidade e o deslocamento do eixo interpretativo de toda vontade de verdade
para a vontade de potência e nada mais. É o fim do fundamento ontológico das
coisas, condicionando um ateísmo plenificado, pois Deus está morto – eis o
grande acontecimento!
Conquanto Nietzsche compreende em
seu próprio pensamento que a doutrina da vontade de poder principia, portanto,
“uma nova instauração de valores”, no sentido de um niilismo plenificado –
consumado. A vontade de poder transforma-se em origem e medida de uma nova
valoração. Portanto, o tomar consciência de que “Deus está morto” é passo
impreterível para a radical transvaloração dos valores supremos até aqui.
O derradeiro passo após a instauração de uma
consciência de transvaloração é, senão, uma nova história mais elevada em que o
princípio de toda avaliação é levada a termo na Vontade de Poder, pois, “o
niilismo ‘da desvaloração dos valores supremos’ [do ateísmo até aqui vigente]
foi superado” (HEIDEGGER). Com isso, a humanidade quer o seu
próprio ser-humano visto a partir da Vontade de Poder. Um homem que se
configure enquanto pertencente à sua vontade mesma – que se projete para além
do homem até aqui visto. Decerto, ele virá, o homem redentor – do grande amor e
do grande desprezo – e nos impulsionará a transcender toda a nossa
insignificância.
Esse homem do futuro, que nos salvará não só
do ideal vigente, como daquilo que dele
forçosamente nasceria, do grande nojo, da vontade de nada, do niilismo,
esse toque de sino do meio-dia e da grande decisão, que torna novamente livre a
vontade, que devolve à terra sua finalidade e ao homem sua esperança, esse
anticistão e antiniilista, esse vencedor de Deus e do nada – ele tem que vir um dia...
– Mas que estou eu a dizer? Basta! Basta! Nesse
ponto não devo senão calar: caso contrário estaria me arrogando o que somente a
um mais jovem se consente, a um “mais futuro”, um mais forte do que eu – o que
tão-só a Zaratustra se consente, a
Zaratustra, o ateu... (NIETZSCHE)
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| Nietzsche fala o Zaratustra |



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