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domingo, 1 de junho de 2014

A sentença nietzschiana: Deus está morto (PARTE 2)

Certamente é por isso que o louco é mal compreendido, mesmo por aqueles que não creem em Deus; e de forma alguma tiram disto as conseqüências que o ateísmo traz e, preferem assim, continuar a viver como se a notícia da “morte de Deus” não se lhes tivessem chegado aos ouvidos, a nós. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens” (NIETZSCHE). A esta sentença devastadora, o mundo supra-sensível fica sem força de atuação. Se “Deus está morto”, então não resta mais nada em que o homem possa se apoiar e a que ele possa se direcionar. Com a consciência de que Deus está morto o niilista inicia seu ponto basilar para uma transvaloração radical dos valores supremos que se vivenciou até aqui.

Se Deus está morto enquanto o fundamento supra-sensível e     enquanto a meta de todo real, se o mundo supra-sensível das ideias perdeu sua força imperativa e antes de tudo sua força evocadora e construtora, então não resta mais nada, junto a quem o homem possa  se manter e em direção a que ele possa se direcionar (HEIDEGGER).
Martin Heidegger,
filósofo alemão

Portanto, com essa leitura de Heidegger, vemos que o “Deus está morto” de Nietzsche é intrínseco ao modo de compreensão do niilismo dada pelo próprio filósofo. À busca infrutífera daquele que gritava: “Procuro Deus! Procuro Deus!”, seguida da incompreensão dos homens, oferecem-nos a interpretação  na qual o acontecimento histórico em que a derrocada de  Deus e o aparecimento do niilismo é um fato que se chagara prematuramente. Conseqüentemente, a morte de Deus é um fato que ainda está acontecendo a nós.
 Há, contudo, duas maneiras de ateísmo – provavelmente encontradas pelo louco do aforismo 125: uma delas é o não crer em Deus, a outra, crer que ele não existe. Essas duas maneiras de ateísmo podem ser confirmadas no pensamento de André Comte-Sponville (1952) em seu Dicionário Filosófico. Segundo este, no primeiro caso, temos uma ausência de crença (ausência de Deus) que ele define como “ateísmo negativo”; já no segundo caso, temos uma crença numa ausência (negação de Deus), posição que o filósofo classifica de “ateísmo positivo”, ou mesmo “militante”. Nietzsche, porém, proclama que ele morreu: nós o matamos – vocês e eu. A “morte de Deus” é expressão máxima do ateísmo niilista por Nietzsche, visto que sem o qual, não poderá haver “a transmutação de todos os valores” – um niilismo.

               
Nietzsche previu grandes marasmos em seu século e até hoje, um grande declínio, após o desatar a terra de seu sol metafísico, até então considerado o pólo a ser atingido; como também a derrocada dos valores platônicos e cristãos no apagar o horizonte. Com isso, coloca-se o homem perto do nada, vitimado pelo niilismo. Os valores ora cultuados durante séculos desabaram, haja vista a notícia da morte de Deus. O mundo soava oco e a absurdo. Assim, Nietzsche antevê a terríveis conseqüências, os grandes cataclismos e desabamentos, que se seguiram à “morte de Deus”:


O maior acontecimento recente – o fato de que “Deus está morto”, de que a crença no Deus cristão perdeu o crédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. [...] Essa longa e abundante seqüência de ruptura, declínio, destruição, cataclismo, que agora é iminente: quem poderia hoje adivinhar o bastante acerca dela para ter de servir de professor e prenunciador de uma tremenda lógica de horrores, de profeta de um eclipse e ensombrecimento solar, tal como provavelmente jamais houve na Terra?... (NIETZSCHE).

É, pois, este, o ponto culminante no processo de dessacralização dos ideais ascéticos, da descritianização do ocidente, isto é, o maior acontecimento recente  – o fato de que “Deus está morto”. Portanto, ao pregar este necessário assassinato, a saber, “a morte de Deus” Nietzsche defende que, só a partir disto, é que os homens se libertarão dos ideais quiméricos. É, portanto, esse acontecimento que vem trazer para nós, a maturidade e o deslocamento do eixo interpretativo de toda vontade de verdade para a vontade de potência e nada mais. É o fim do fundamento ontológico das coisas, condicionando um ateísmo plenificado, pois Deus está morto – eis o grande acontecimento!

Conquanto Nietzsche compreende em seu próprio pensamento que a doutrina da vontade de poder principia, portanto, “uma nova instauração de valores”, no sentido de um niilismo plenificado – consumado. A vontade de poder transforma-se em origem e medida de uma nova valoração. Portanto, o tomar consciência de que “Deus está morto” é passo impreterível para a radical transvaloração dos valores supremos até aqui.
O derradeiro passo após a instauração de uma consciência de transvaloração é, senão, uma nova história mais elevada em que o princípio de toda avaliação é levada a termo na Vontade de Poder, pois, “o niilismo ‘da desvaloração dos valores supremos’ [do ateísmo até aqui vigente] foi superado” (HEIDEGGER). Com isso, a humanidade quer o seu próprio ser-humano visto a partir da Vontade de Poder. Um homem que se configure enquanto pertencente à sua vontade mesma – que se projete para além do homem até aqui visto. Decerto, ele virá, o homem redentor – do grande amor e do grande desprezo – e nos impulsionará a transcender toda a nossa insignificância.


Esse homem do futuro, que nos salvará não só do ideal vigente, como daquilo que dele forçosamente nasceria, do grande nojo, da vontade de nada, do niilismo, esse toque de sino do meio-dia e da grande decisão, que torna novamente livre a vontade, que devolve à terra sua finalidade e ao homem sua esperança, esse anticistão e antiniilista, esse vencedor de Deus e do nada – ele tem que vir um dia...
 – Mas que estou eu a dizer? Basta! Basta! Nesse ponto não devo senão calar: caso contrário estaria me arrogando o que somente a um mais jovem se consente, a um “mais futuro”, um mais forte do que eu – o que tão-só a Zaratustra se consente, a Zaratustra, o ateu... (NIETZSCHE)
Nietzsche fala o Zaratustra

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A sentença nietzschiana: Deus está morto (PARTE 1)

“O seguinte esclarecimento [da sentença nietzschiana ‘Deus está morto’] procura indicar o ponto a partir do qual, talvez, possa vir a ser colocado um dia a pergunta sobre a essência do niilismo”. (HEIDEGGER)

É, pois, com essa afirmação que a leitura heideggeriana de Nietzsche se nos apresenta nas primeiras linhas de seu escrito – que ora nos inspirou a presente temática –, a saber, a sentença nietzschiana: Deus está morto. A interpretação, todavia, de Heidegger sobre Nietzsche comporta uma acertada reflexão acerca dos textos nietzschianos, e, interpela aos seus leitores com a análise da aparentemente simples sentença “Deus está morto” o cerne do niilismo.

O aspecto da morte de Deus abrirá à nossa reflexão a possibilidade de compreensão deste movimento histórico que se tornou um dos símbolos da filosofia de Nietzsche. Assim, com pronunciamento da morte de Deus, os valores últimos não se estabilizam mais; e sob o sinal da ausência de Deus, o niilismo surge como nomenclatura para tal fenômeno, que se inicia no século XIX, transpassando todo o período seguinte até nossos dias. Contudo, isso decorre do fato de que a sentença nietzschiana denomina o destino final de dois mil anos de história dos valores ocidentais.

Nietzsche expressou a sentença da morte de Deus pela primeira vez em sua obra A gaia ciência (1882). Com este escrito começa o caminho do niilismo propriamente pensado por Nietzsche, ou seja, a morte de Deus na desvaloração dos valores supremos. No entanto, numa anotação para a elaboração de seu primeiro escrito, O nascimento da tragédia (1872), pode-se constatar que o pensamento da morte de Deus já se apresentava em seu gérmen; posto que essa ideia já estava na intenção do jovem alemão. Assim, lemos: “Eu acredito na sentença originalmente germânica: todos os deuses precisam morrer” (NIETZSCHE). 

Não obstante, é, de fato, em A gaia ciência que a idiossincrasia nietzschiana frente à temática “Deus está morto” revela-se propriamente na intenção da morte do Deus ocidental – o Deus cristão. Porém, essa investida contra o Crucificado, não encerra uma crítica às práticas da religiosidade cristã tão somente, mas a toda representação dos ideais supra-sensíveis na história de dois mil anos, e na qual os homens foram submetidos; e seus valores moldados a partir desse valor supremo: Deus.

Na obra supra citada, mais precisamente no aforismo 125, podemos conferir um texto que é freqüentemente utilizado para a reflexão do temo em uso; e no qual podemos constatar que o homem desvairado diz a notícia da morte de Deus. Vale, portanto, observarmos o texto completo desse aforismo intitulado “o homem louco”. Vide:


O homem louco. – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar intensamente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar: “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu! Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ele agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘em baixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manha? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos que inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca ouve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisam de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles o cometeram!” – Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?” (NIETZSCHE)

Ora, com a desvaloração dos valores supremos em Deus, sentenciada por Nietzsche, os homens vêem-se carecidos de finalidade para a sua existência; e, por conseguinte, a vida torna-se sem sentido. “A sentença ‘Deus está morto’ significa: o mundo supra-sensível está sem força de atuação. Ele não fomenta mais vida alguma”, diz Heidegger. Destarte, podemos conferir essa ideia de um mundo; de um mundo que não vige mais força alguma, presente no Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (1888).

Nietzsche ao gritar a morte de Deus, nos lábios daquele louco declara ser ele mesmo incompreendido – acaso não estaria o próprio Nietzsche a nos interpelar? A imagem do homem que possuía uma lâmpada e “procura Deus” em pleno dia evoca, decerto, a figura do filósofo cínico Diógenes (404 ou 412 a.C.) que procurava “um homem” nas mesmas situações do desvirado de Nietzsche.
Com isso, podemos perceber que o vaticínio da sentença nietzschiana encera a necessária adesão por parte de todos a si mesmos; cada qual é o assassino de Deus, pois. Deste modo, o Deus que morre não é apenas o Deus dos sacerdotes, mas também o deus dos filósofos que, mesmo não acreditando no Deus dos ritos e superstições, percebem-se também sem o princípio ordenador do cosmo – e que assegura um sentido ao universo. Com isso, o homem desvairado que grita “Deus está morto”, é incompreendido; mesmo entre os ateus por destruir todo e qualquer sentido ao mundo supra-sensível quanto ao sensível. Por isso, ele mesmo, o “louco”, acredita que o seu tempo ainda não chegou, isto é, o anúncio da morte de Deus não se estabeleceu no seio de seus contemporâneos.

(Continua...)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Niilismo e Super-homem

Tudo não tem sentido. Este é o aspecto fundamental para a compreensão do niilismo. Do latim nihil (nada), enquanto termo, o niilismo surge na literatura russa do século XIX para designar uma espécie particular de homem: o negador de valores, o que nada respeita. Porém, com Nietzsche, a questão alarga-se, ganhando as mais variadas formas revelando sua expressão e força, sendo considerado um problema e uma marca do mundo contemporâneo. Nesse escopo, o niilismo configura-se como o responsável pela fragilidade dos princípios racionais que definem o mundo, sob a pretensão de explicitar que as bases dos valores socioculturais mostraram-se ser nada. Em Nietzsche o niilismo ganha a mais alta expressão filosófica sob seus estados psicológicos reconhecidos pelo filósofo como condição existencial. Portanto, na visão de Nietzsche o homem é existencialmente niilista. Sua posição frente ao niilismo se apresenta ainda sob o aspecto da multiplicidade de força da Vontade de Poder em vias passiva e ativa, sendo esta última privilegiada por Nietzsche por assumir-se enquanto força destrutiva dos valores. É o momento histórico em que o homem reconhece explicitamente a ausência de fundamento quer moral quer existencial. Nessa ótica, Heidegger coloca a questão do nada como a redução do ser a valor; isto permite encontrar o elo com a sentença da “morte de Deus” profetizada por Nietzsche. Portanto, a sentença nietzschiana remete à compreensão do que se configura o cerne do movimento niilístico-histórico apregoado na ruína dos valores supremos (Deus). Tal expressão denota a derrocada de mais de dois mil anos de mentira a que se subjugara o ocidente. Ora, com a desvaloração dos valores supremos (Deus) os homens vêem-se carecidos de finalidade para sua existência; e, por conseguinte a vida torna-se sem sentido. Contudo, no “Zaratustra”, Nietzsche esboça sua “ateologia” de modo alegórico ensinando o surgimento do super-homem. Para tanto, Zaratustra proclama não apenas a “morte de Deus”, mas o advento da aurora dos filósofos, ou seja, o domínio do super-homem como o sentido da terra. Nietzsche procura estabelecer o super-homem como o futuro do homem, pois, passaria, volitivamente, a ser tido como tal por estar na posição determinante da Vontade de Poder. Zaratustra ama àqueles que não procuram além das estrelas uma razão para sucumbir e serem sacrificados; mas que sucumbem à terra para que ela seja um dia do super-homem. Agora, todos os deuses morreram; que viva o super-homem!