domingo, 29 de maio de 2016

Hey Mãe! A Juventude e os seus Gigantes

Pierre Félix Bourdieu , sociólogo francês
 (1930-2002)
          A juventude é um tema amplamente discutido entre os sociólogos e toda a sociedade por considerá-lo parte integrante do processo de desenvolvimento social.
            Observada, não apenas por estudiosos em seus artigos científicos, mas também retratada no meio artístico em suas mais diversas formas, como por exemplo, a música, a banda nacional Engenheiros do Havaí em uma de suas composições trouxe nos anos 80 a imagem de uma juventude em busca de seu espaço numa sociedade de gigantes patriarcal.
            Formada por jovens, os Engenheiros cantam para a juventude. Em um excerto onde se lê: “A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes” podemos perceber como a juventude dos anos 80 estava se estruturando na terra dos adultos. Afinal, o conceito de juventude é relativamente novo se compararmos o decurso de nossa história, começando, apenas, a ter sua formação a partir dos anos 1950 com o fortalecimento da economia mundial no pós-guerra.
            Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), o conceito de juventude é um dado biológico manipulado e manipulável socialmente, isto é, mesmo que a idade biológica de um indivíduo o coloque como jovem, a sociedade na qual ele está inserido poderá mantê-lo ou conduzi-lo à fase adulta de acordo com suas convenções econômicas. Numa sociedade economicamente elevada os adultos conseguem suprir as necessidades de sua juventude sem que estes sejam obrigados a trabalhar e manter por mais tempo o jovem eu seu estado de preparação, ou seja, na escola; buscando manter a reprodução do sistema econômico dos adultos preparando-os para os mais altos cargos de trabalho.
            Ao analisarmos a letra proposta, acima citada, podemos perceber como a juventude fora retratada na sociedade. O título da canção “Terra de Gigantes” nos faz evocar o olhar que Bourdieu lança sobre o conceito de juventude. Ao mencionar uma terra de gigantes a banda gaúcha coloca a juventude frente ao mundo dos adultos, ou seja, dos gigantes que possuem o poder social. Com isso, ao rotular a juventude como “banda numa propaganda de refrigerantes” o rock nacional dos Engenheiros do Havaí expõe uma juventude manipulada pelo poder econômico dos adultos.
            O uso da imagem do refrigerante quer alcançar essa parte da nossa sociedade, visto que é um produto largamente comercializado entre os jovens. Afinal, os adultos querem manter os jovens como jovens pelo maior tempo possível para que estes não lhes tomem o poder social muito cedo. O trinômio “banda-propaganda-refrigerante” quer garantir ao jovem o seu espaço de juventude enquanto os gigantes comandam a sociedade.
            Assim, podemos dizer de maneira simples, mas sem finalizar o debate sobre o tema, que a juventude cantada pelos gaúchos dos Engenheiros do Havaí denota uma luta de poder entre bandas e gigantes, entre jovens e adultos, onde cada um procura ser reconhecido socialmente.

            “Hey mãe! / Eu tenho uma guitarra elétrica / Durante muito tempo isso foi tudo / Que eu queria ter”.  Nossa juventude busca seu reconhecimento, algo que ficou pra trás, e que luta para se colocar como indivíduo ativo na sociedade.


terça-feira, 24 de maio de 2016

A ascese protestante e o capitalismo moderno


Max Weber (1864-1920)
            Considerado um dos clássicos da sociologia, o alemão Max Weber (1864-1920) teve em sua trajetória intelectual o reconhecimento de grande parte de seu trabalho como pensador do estudo do capitalismo ao analisar o processo de racionalização chamado “desencantamento do mundo” frente o protestantismo e a economia.
            Em sua obra A Ética protestante e o Espírito do Capitalismo – texto considerado o mais conhecido do autor – Weber lança o seu olhar para as relações entre o capitalismo e o protestantismo calvinista na construção da nova sociedade puritana na Europa de sua época.
            Para Weber, a religião possui um aspecto fundamentalmente importante no desenvolvimento da sociedade. Reconhece também que a disciplina e a pregação dos lideres cristãos exerce influência na vida individual das pessoas e em toda nossa sociedade. Em discussão com o puritanismo calvinista ele observa a ideia de vocação em contraposição à ascese católica da Idade Média que via a riqueza em si como um sério perigo para a santificação. Os protestantes calvinistas ingleses não viam obstáculos na riqueza do clero; antes, um aumento da sua reputação mediante aplicação de juros em seus negócios visando o lucro.
            Segundo ética protestante o trabalho ganha uma significativa ênfase no combate ao ócio improdutivo “Pois o ‘eterno descanso da santidade’ encontra-se no outro mundo; na Terra o Homem deve, para estar seguro de seu estado de graça, ‘trabalhar o dia todo em favor do que lhe foi destinado’” (Weber). Assim, perder tempo significa, agora, o principal pecado. A sentença “Time is Money” de Franklin passa a ser observada em um sentido espiritual, onde toda hora perdida redunda na perda da glorificação de Deus. O trabalho constitui, antes de tudo, a finalidade da vida, pois, conforme a expressão paulina “quem não trabalha não deve comer” e isso vale para todos, ricos e pobres.
            Outro aspecto da ascese protestante é o fomento das especializações dos trabalhos individuais gerando uma melhoria tanto quantitativa quanto qualitativa. O trabalhador especializado efetuará seu ofício ordenadamente. Sua vida profissional é sinônima de seu estado de graça. Não é a santificação de um povo, uma comunidade, mas a Graça divina no indivíduo moralmente aceita como vocação para o trabalho pedida por Deus. O self-made man ou empreendedor autônomo é a demonstração da aprovação ética. Deus abençoa os negócios para aqueles homens que aproveitam as oportunidades divinas. A utilidade de uma vocação é orientada por critérios morais, pelos bens e principalmente pela lucratividade.
O Quaker era um grupo religioso
entre os puritanos
            A atitude do puritanismo em sua crença de ser tido como povo escolhido por Deus caracteriza os representantes dessa nova ética emergente da burguesia saída após o período medieval dos nobres ociosos sentados em seus tronos e cátedras de luxo.  Os novos protestantes representam uma época heroica do funcionalismo racional do capitalismo urbano focado nos lucros dos pequenos empreendedores individuais.
            Essa busca pela lucratividade corroborada pela crença religiosa trouxe um acúmulo de bens nas sociedades protestantes, mas também uma perda significativa nas artes, afinal o puritanismo tinha um ódio feroz contra tudo que cheirasse a superstição mágica e festividades com símbolos religiosos, como por exemplo, árvore de Natal e pinturas artísticas nos templos. Essa característica tendência para a uniformidade da vida contribui para a padronização capitalista visando o uso racional e utilitário da riqueza.  Ostentar o luxo na vida religiosa e ceder à idolatria da carne.

Mas, o que era ainda mais importante: a avaliação religiosa do   infatigável, constante e sistemático labor vocacional secular como o mais alto instrumento de ascese, e, ao mesmo tempo, como o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem, deve ter sido presumivelmente a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida, que aqui apontamos como “espírito” do capitalismo. (Weber)


            Esse estilo de vida favoreceu o estabelecimento de uma vida econômica racional tendo sido o berço do moderno “homem econômico”.  A conduta racional baseada na ideia de vocação torna-se o elemento fundamental para a compreensão da ética protestante e o espírito do capitalismo, pois a ação do indivíduo, sendo ela religiosa ou não reverbera na transformação da sociedade. Neste caso, podemos dizer que há um “desencantamento do mundo”, onde a arte e a mágica das curas dá espaço para os homens agraciados pelo labor e seu desenvolvimento cultural como “especialistas sem espírito, sensualistas sem coração” para elevar o crescimento racional e econômico do indivíduo e sua sociedade.

Puritanos


terça-feira, 3 de maio de 2016

A sociedade tem precedência sobre o indivíduo?


            Para que a sociologia se estabelecesse como ciência autônoma e se apresentasse com tal seria necessário possuir um objeto próprio de estudo. Um dos seus principais nomes foi o francês Émile Durkheim (1858-1917) evocado entre os clássicos da sociologia. Para Durkheim é necessário buscar um método de estudo para se compreender a sociedade e os seus fatos sociais.
            Em sua obra As regras do método sociológico (1895) ele capitula: o que é o fato social? Tal conceito, antes de tudo, está posto como uma das principais ideias do autor ao analisar a sociedade. Durkheim diz: “(...) não há por assim dizer acontecimentos humanos que não possam ser chamados sociais.”
            O binômio sociedade-indivíduo, em Durkheim, passa para além de uma altercação sociológica, ele denota uma precedência de um sobre o outro. Por ser o fato social algo que está dado na sociedade, ou seja, exterior ao ser humano, tal processo de sociabilidade é sempre forte sobre a individualidade. O primeiro momento fundamental para se perceber que existe uma precedência de um sobre o outro é tratar o fato social como coisa a ser observada. Perceberemos que a sociedade tem precedência sobre o individuo. Desse modo, temos a certeza que o fato social está posto fora do indivíduo e que pode ser objeto de estudo da ciência.
            A partir de um fato social pode se estudar toda uma sociedade, visto que os pressupostos da Exterioridade (onde o fenômeno existe de forma independente e particular); da Coercitividade (onde há uma imposição de algo que impele o indivíduo de determinada forma) e da Generalidade (onde um fato social pode cobrir uma sociedade inteira) constroem, com o conceito basilar de sua obra, a precedência da sociedade em relação ao indivíduo.

            Assim, para Durkheim, o fato social, imprime de toda maneira, dado a sua existência própria, a independência e precedência às manifestações individuais.

domingo, 8 de junho de 2014

Unidade da Igreja e diversidade religiosa


Durante a semana que antecede a Festa de Pentecostes segundo calendário litúrgico católico temos a Semana de oração pela unidade dos cristãos, com a intenção de orar, rezar, mentalizar sobre a unidade de paz e prosperidade entre as comunidades religiosas cristãs do mundo inteiro.
No entanto, vimos por esses dias uma enorme contradição entre os adeptos deste grupo que apregoa a paz conforme os ensinamentos evangélicos. No interior da Paraíba, só para exemplificarmos, vimos que um líder cristão – justamente nos dias que antecederam a Solenidade da vinda do Espírito Santo – incitou um grupo de religiosos de sua denominação a utilizarem crianças para a disseminação do preconceito sob a forma de violência contra símbolos religiosos do cristianismo católico demonizando-os e fomentando a barbárie em defesa de sua interpretação bíblica.

Os esforços para uma cultura de paz nos parecem cada vez mais distantes quando vemos tais práticas no seio cristão. Porém, nada há quem nos separe do amor de Deus, conforme nos indica Paulo em sua encíclica aos romanos: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? (Rm 8, 35). Por isso, somos convidados a meditar mais profundamente na ação do Espírito Santo na vida das nossas comunidades cristãs eclesiais; e encontrar um meio de coabitar de maneira mais eclesiogênica, isto é, nascida na unidade.


É a unidade da Igreja, querida – alvejada – por Jesus em sua oração sacerdotal (cf. Jo 17), que nos faz pensar acerca de nossas atitudes frente aos irmãos que professam credo diferente do nosso. Estamos sendo “UM” para que o mundo creia? Será que devemos tolerar o outro? Não creio! Digo, não devemos tolerar, todavia, suportar, ou seja, dar suporte ao outro para que cresçamos na unidade.

Quando dizemos que alguém tem prática diferente da nossa, logo dizemos que “fulano não fala a nossa língua”, isto é, não nos entendemos, não importando o quanto se discurse sobre isso. Tal incompreensão do outro está contida no simbolismo das línguas descrito no Gênesis, ao passo que, as línguas presentes nos Atos denotam característica inversamente proporcional. Naquele ninguém se entendia, mas neste “Como é que cada um de nós os ouve em sua própria língua materna?” (At 2, 8). O milagre possivelmente está nos ouvintes que se abriram para acolher a mensagem de unidade ofertada pelos apóstolos naquele quinquagésimo dia após vigílias de oração. O fogo que viera sob os que permaneceram unidos em oração se apresenta como que formas de línguas.


O fogo toma esta forma talvez para significar esta nova visão das línguas que tem a finalidade de unir os homens numa mesma fé e não de os separar com aquela divisão das línguas ( cf. Gn 11, 1-9).

De fato, “existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12, 4); Pertence à essência da vida da Igreja haver sempre, diversidade de dons espirituais (carismas), ministérios e operações. Toda esta diversidade e variedade de dons procede da unidade divina e concorre para que a unidade da Igreja – um só Corpo – seja mais rica. E é nesse espírito que devemos auscultar em nossos corações e, assim, guardar a mensagem que somos diferentes, mas um só é o espírito de caridade, de luz, de sabedoria e entendimento, frente à diversidade religiosa, que nos fomenta à unidade própria da Eclésia em seu impulso inicial dado em Pentecostes – hoje.

sábado, 7 de junho de 2014

Tá lá o corpo estendido no chão


Muitos de nós, talvez, estamos tão cheios de nossas preocupações ou distrações que não nos apercebemos ao meio de nossa convivência humana.
Uma das circunstâncias que chama a nossa atenção está ligada diretamente à noção de segurança que temos em nosso país de um modo geral. Mas não faço aqui uma alusão tão somente aos níveis de criminalidade, postos inclusive entre os maiores do mundo em questão de homicídios, dos quais três das nossas cidades figuram no ranque, nada privilegiado, das dez mais do mundo, segundo recente pesquisa da ONU.
A violência contra a vida está marcante em nosso país. Conforme a definição de homicídio, encontrada em dicionários linguísticos de nossa pátria, podemos até imaginar como esta questão vem sendo tratada; porém, não por sua definição em si, ou seja, a morte de uma pessoa praticada por outrem, mas no modo como a tratamos no decorrer dos anos.
A violência contra a vida humana tanto se nos apresenta ao ponto de parecer que nós nos acostumamos com ela – num certo sentido. Passamos do medo da barbárie ao silêncio do nosso egoísmo. Só percebemos que este exercício da brutalidade está bem perto de nós quando vemos cair aos nossos pés um ente querido, um irmão. Fora isso não se dá importância a tantos outros que caem todos os dias nas ruas de nossas cidades. Pais e mães, tios, irmãos sofrem a cada dia com a perda de um dos seus para a criminalidade.
O fratricídio cometido por Caim
Muitos há quem se pergunte: “Mas esse problema é meu?” Depende do ponto de vista que você tem da vida e dos outros...
João Bosco, músico popular brasileiro, num excerto de sua obra diz como tantos de nós vemos o nosso semelhante, vide: Tá lá o corpo/ estendido no chão / em vez de rosto uma foto / de um gol/ em vez de reza / uma praga de alguém / e um silêncio / servindo de amém.
Então, o que nos torna tão egoístas ao ponto de silenciarmos frente à dor de outrem? Quem sabe se não podemos tratar o sofrimento daquele como alguém mais próximo de nós, ou seja, tratá-los como irmão – frater, em latim. E é aqui que queremos indicar como as nossas relações de alteridade poderiam ser estabelecidas. Ao invés de tratar o abatido como mais um homicídio na conta do governo, e até praguejar sobre seu corpo ferido, o tratássemos como a um irmão.
Não obstante, o fato de o termo ser comumente usual entre os cristãos, este evoca a posição exigente de atenção para com o outro, o tornando mais próximo. Talvez soe mais urgente se tomarmos aquele substantivo referido ao crime contra a vida, por fratricídio do contíguo.
Não queremos, pois, pregar uma doutrina religiosa, mas tão só um modo de ver o outro na possibilidade de causar em nós um insight de que eles, os abatidos pela violência, são desse modo, nosso próximo, nosso irmão.
Não fechemos nossa janela de frente pro crime!

Tá lá o corpo estendido no chão... O que fazer agora com o nosso irmão? Sermos indiferentes? Não diga amém com seu silêncio.

domingo, 1 de junho de 2014

A sentença nietzschiana: Deus está morto (PARTE 2)

Certamente é por isso que o louco é mal compreendido, mesmo por aqueles que não creem em Deus; e de forma alguma tiram disto as conseqüências que o ateísmo traz e, preferem assim, continuar a viver como se a notícia da “morte de Deus” não se lhes tivessem chegado aos ouvidos, a nós. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens” (NIETZSCHE). A esta sentença devastadora, o mundo supra-sensível fica sem força de atuação. Se “Deus está morto”, então não resta mais nada em que o homem possa se apoiar e a que ele possa se direcionar. Com a consciência de que Deus está morto o niilista inicia seu ponto basilar para uma transvaloração radical dos valores supremos que se vivenciou até aqui.

Se Deus está morto enquanto o fundamento supra-sensível e     enquanto a meta de todo real, se o mundo supra-sensível das ideias perdeu sua força imperativa e antes de tudo sua força evocadora e construtora, então não resta mais nada, junto a quem o homem possa  se manter e em direção a que ele possa se direcionar (HEIDEGGER).
Martin Heidegger,
filósofo alemão

Portanto, com essa leitura de Heidegger, vemos que o “Deus está morto” de Nietzsche é intrínseco ao modo de compreensão do niilismo dada pelo próprio filósofo. À busca infrutífera daquele que gritava: “Procuro Deus! Procuro Deus!”, seguida da incompreensão dos homens, oferecem-nos a interpretação  na qual o acontecimento histórico em que a derrocada de  Deus e o aparecimento do niilismo é um fato que se chagara prematuramente. Conseqüentemente, a morte de Deus é um fato que ainda está acontecendo a nós.
 Há, contudo, duas maneiras de ateísmo – provavelmente encontradas pelo louco do aforismo 125: uma delas é o não crer em Deus, a outra, crer que ele não existe. Essas duas maneiras de ateísmo podem ser confirmadas no pensamento de André Comte-Sponville (1952) em seu Dicionário Filosófico. Segundo este, no primeiro caso, temos uma ausência de crença (ausência de Deus) que ele define como “ateísmo negativo”; já no segundo caso, temos uma crença numa ausência (negação de Deus), posição que o filósofo classifica de “ateísmo positivo”, ou mesmo “militante”. Nietzsche, porém, proclama que ele morreu: nós o matamos – vocês e eu. A “morte de Deus” é expressão máxima do ateísmo niilista por Nietzsche, visto que sem o qual, não poderá haver “a transmutação de todos os valores” – um niilismo.

               
Nietzsche previu grandes marasmos em seu século e até hoje, um grande declínio, após o desatar a terra de seu sol metafísico, até então considerado o pólo a ser atingido; como também a derrocada dos valores platônicos e cristãos no apagar o horizonte. Com isso, coloca-se o homem perto do nada, vitimado pelo niilismo. Os valores ora cultuados durante séculos desabaram, haja vista a notícia da morte de Deus. O mundo soava oco e a absurdo. Assim, Nietzsche antevê a terríveis conseqüências, os grandes cataclismos e desabamentos, que se seguiram à “morte de Deus”:


O maior acontecimento recente – o fato de que “Deus está morto”, de que a crença no Deus cristão perdeu o crédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. [...] Essa longa e abundante seqüência de ruptura, declínio, destruição, cataclismo, que agora é iminente: quem poderia hoje adivinhar o bastante acerca dela para ter de servir de professor e prenunciador de uma tremenda lógica de horrores, de profeta de um eclipse e ensombrecimento solar, tal como provavelmente jamais houve na Terra?... (NIETZSCHE).

É, pois, este, o ponto culminante no processo de dessacralização dos ideais ascéticos, da descritianização do ocidente, isto é, o maior acontecimento recente  – o fato de que “Deus está morto”. Portanto, ao pregar este necessário assassinato, a saber, “a morte de Deus” Nietzsche defende que, só a partir disto, é que os homens se libertarão dos ideais quiméricos. É, portanto, esse acontecimento que vem trazer para nós, a maturidade e o deslocamento do eixo interpretativo de toda vontade de verdade para a vontade de potência e nada mais. É o fim do fundamento ontológico das coisas, condicionando um ateísmo plenificado, pois Deus está morto – eis o grande acontecimento!

Conquanto Nietzsche compreende em seu próprio pensamento que a doutrina da vontade de poder principia, portanto, “uma nova instauração de valores”, no sentido de um niilismo plenificado – consumado. A vontade de poder transforma-se em origem e medida de uma nova valoração. Portanto, o tomar consciência de que “Deus está morto” é passo impreterível para a radical transvaloração dos valores supremos até aqui.
O derradeiro passo após a instauração de uma consciência de transvaloração é, senão, uma nova história mais elevada em que o princípio de toda avaliação é levada a termo na Vontade de Poder, pois, “o niilismo ‘da desvaloração dos valores supremos’ [do ateísmo até aqui vigente] foi superado” (HEIDEGGER). Com isso, a humanidade quer o seu próprio ser-humano visto a partir da Vontade de Poder. Um homem que se configure enquanto pertencente à sua vontade mesma – que se projete para além do homem até aqui visto. Decerto, ele virá, o homem redentor – do grande amor e do grande desprezo – e nos impulsionará a transcender toda a nossa insignificância.


Esse homem do futuro, que nos salvará não só do ideal vigente, como daquilo que dele forçosamente nasceria, do grande nojo, da vontade de nada, do niilismo, esse toque de sino do meio-dia e da grande decisão, que torna novamente livre a vontade, que devolve à terra sua finalidade e ao homem sua esperança, esse anticistão e antiniilista, esse vencedor de Deus e do nada – ele tem que vir um dia...
 – Mas que estou eu a dizer? Basta! Basta! Nesse ponto não devo senão calar: caso contrário estaria me arrogando o que somente a um mais jovem se consente, a um “mais futuro”, um mais forte do que eu – o que tão-só a Zaratustra se consente, a Zaratustra, o ateu... (NIETZSCHE)
Nietzsche fala o Zaratustra

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Idade Média, Idade das Trevas. Será?


Mil anos de história! Esse é o tempo em que podemos esquadrinhar o período medieval comumente aceito entre os historiadores. E o que podemos dizer desse longo período de nossa história ocidental?
Temos, entre nós, um conceito pré-estabelecido desse período devido à maneira como, muitos de nós, aprendemos na escola, ou seja, uma aprendizagem em que coloca o medievo como um período prejudicial às ciências técnicas ou até mesmo que deva ser esquecido, devido ao teocentrismo vigente nessa época. Porém, talvez o caro leitor esteja usando uma das invenções dessa era que é tida como negra por alguns para melhor ler estas palavras, a saber, os óculos. Este criado pó um membro do clero e pertencente
Óculos: uma invenção Medieval 
à Ordem dos Pregadores (Dominicanos), Giordano de Pisa. No entanto, não quis compartilhar os segredos de tão grande invento; Sendo copiado, só pela observação, por um confrade que de imediato ensinou aos outros monges. Ou ainda tem sobre a mesa um livro de Aristóteles ou as Sagradas Escrituras que chegou até nós graças ao trabalho árduo de um copista. Ou ainda vislumbrou belas igrejas e conventos, a exemplo dos deixados pelos frades franciscanos, e Mosteiros Beneditinos presentes na Paraíba e em Pernambuco.
Monge copista
Mas não só de mosteiros se compreende esse milênio ocidental. Assim, um conceito bastante caro para a compreensão da Idade Média, frente ao conceito pejorativo de trevas, é o feudalismo, isto é, um modo de produção econômico-político-social predominante entre os séculos V ao XV.
É uma sociedade complexa, e o mínimo de preconceito pode inviabilizar sua compreensão de modo satisfatório.
Como sociedade, as várias atividades político-econômicas tinham uma característica marcante, inclusive com rastros de semelhanças desses modos de convivência encontrados no nordeste de nosso país.
Servos trabalhando na colheita
de trigo (começo do século XIV)
A relação entre o senhor e seus servos não se pode ponderar aos modos das relações trabalhistas atuais; pois aquele tinha uma ligação de serviço e de guarda com estes. O feudo era o lugar onde tudo se produzia. Dentre as formas de relações está o comitatus que é uma relação da sociedade feudal entre o suserano e o vassalo baseado na honra e lealdade; onde a economia agrária e autossuficiente de subsistência regia o controle da gleba do senhor através do rodízio no uso destas. Como também era usual a prática da talha, corveia e banalidades configuravam as principais obrigações dos servos na época do feudalismo, ou seja, um modo de vida em que os servos estavam presos às terras dos senhores feudais e mesmo os camponeses e vilões proprietários de terras tinham com o senhor feudal. Muito diferente da economia de caça dos séculos anteriores ao medievo; um avanço no processo de estabilidade da vida num espaço de terra.
E é em busca de terra e de fieis que a maior força existente da época dá início a uma nova página, sangrenta, mas sob a Cruz da fé Católica e o tremular das bandeiras militares da cavalaria sob a unção divina. Um dos pontos marcantes e que evoca decerto o nosso tema, as cruzadas.
Papa Urbano II enviando cavaleiros
 para a Cruzada
Em 1905 o papa Urbano II convocou tais expedições com o intuito de retomar a Terra Santa dos muçulmanos. Todavia, a Igreja não era a única interessada no êxito dessas expedições: os nobres feudais tinham interesse na conquista de novas terras. Dos castelos, que eram mais uma fortificação militar a um encantamento romântico, os Bispos da Igreja através de uma benção aos cavaleiros e suas armaduras repletas de rituais de investidura, enviavam suas tropas com o juramento de lutar pelo Reino da Igreja que é a glória do Reino de Deus.
Foi com Carlos Magno em 768, que a dinastia carolíngia alcançou o apogeu da dominação dos bárbaros francos. Na formação do império organiza os domínios imperiais em condados geridos por um nobre e um bispo. Essa administração de governos locais sob um único comando imperial ia de encontro ao processo de descentralização política que marcou toda a Europa Medieval. Entretanto, sob o aspecto econômico o império contou com várias feiras e pequenos comércios nos novos centros urbanos. Com esse cenário de crescimento, esse período ficou conhecido como “renascimento carolíngio” devido às várias igrejas construídas e obras de escritores Greco-romanos traduzidas e a ourivesaria devido à sua paixão pelas artes. Um brilho na ascensão medieval da sociedade europeia.

 Desse modo, tentamos aqui expor alguns fatos desse período para que o nosso leitor, mais atento aos acontecimentos histórico-sociais, busque um aprofundamento maior sobre o tema proposto e tire suas conclusões daquele que fora considerado um tempo improdutivo ou negro para o avanço da sociedade ocidental. Será que devemos algo a esse período? Se olharmos à nossa volta, ao fim deste texto, e analisarmos se algo nos evoca àqueles séculos, teremos, de certo, uma resposta à indagação titular proposta; Pois, parafraseando um texto copiado nessa época, nem só de trevas vive a Idade Média, mas de toda boa invenção e belas obras.